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22/09/2022 às 14h54 - atualizada em 22/09/2022 às 16h31

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MACEIO / AL

Ney Matogrosso traz show ‘Bloco na Rua’ a Maceió
Involuntariamente, parte do repertório ganhou significado diferente, pelo momento para o país
Ney Matogrosso traz show ‘Bloco na Rua’ a Maceió
Cartaz do show: artista garante que espetáculo não é panfletário, nunca foi panfletário em questão nenhuma – repertório foi de antes de

Aos 80 anos, Ney Matogrosso segue sendo um colosso artístico. É imparável. Ou não pretende parar tão cedo: vai seguir na estrada até onde aguentar, subindo ao palco de diferentes rincões e entregando a melhor performance possível. Eventualmente, gravando disco. Tanto que no segundo semestre de 2021 ele lançou o álbum de inéditas Nu Com a Minha Música e retomou a turnê de Bloco na Rua — show que ele volta a trazer a Porto Alegre.


No show, Ney costuma subir ao palco vestindo uma pele dourada, que é feita de um material que se assemelha a um tricô finíssimo metalizado. Esse figurino foi criado pelo estilista paraense Lino Villaventura. Dependendo das luzes de palco que refletem no tecido metálico, a roupa de Ney pode ficar esverdeada, avermelhada, azulada, entre outras possibilidades. A música de abertura, Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio, batiza o espetáculo.


Para o repertório de Bloco na Rua, Ney optou por misturar canções que já gravou com outras que lhe agradam cantar. Entre os clássicos que nunca havia cantado antes dessa turnê, estão Como 2 e 2 (Caetano Veloso) e Feira Moderna (Beto Guedes/Lô Borges/Fernando Brant). No show, interpreta músicas como Jardins da Babilônia (Rita Lee), A Maçã (Raul Seixas), O Beco (Os Paralamas do Sucesso), Pavão Mysteriozo (Ednardo) e Tua Cantiga (Chico Buarque), entre outras.


“São músicas que gosto de cantar, que gostaria de cantar ou que nunca tinha cantado. E está dando muito certo. Quando o show começa, as pessoas já reconhecem Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua e começam a cantar junto”, relata Ney.


“É um show mais rock, embora o que faça seja mais pop do que rock. Tem bastante energia”.


No entanto, involuntariamente, parte do repertório ganhou outro significado para o público, por conta de canções como Coração Civil ("Quero que a justiça reine em meu país (...) Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?"), de Milton Nascimento. Ou então Tem Gente Com Fome ("Se tem gente com fome/ Dá de comer/ Mas o freio de ar todo autoritário/ Manda o trem calar"), que adapta o poema do poeta pernambucano Solano Trindade. Ou ainda O Beco ("No beco escuro explode a violência") e a própria Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua — faixa de 1972, composta durante a ditadura, em que Sérgio Sampaio canta sobre não conseguir exercer sua liberdade.


Ney garante que o repertório foi construído antes de "Jair Messias aparecer no horizonte". Porém, o cantor atesta que as músicas ganharam outra importância dentro do atual contexto do país.


“Quando interpreto ‘Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua’, entendo a importância política na época. Só que não canto por causa disso, mas sim porque acho muito interessante você abrir um show dizendo que quer botar o seu bloco na rua, remetendo a imagens de Carnavais da década de 1930, homens vestidos de mulheres, aquela coisa de bloco sujo de rua”, explica.


“Hoje, o repertório dialoga mais com a atualidade do que em 2018, quando o elaborei. Para mim, não ganhou outro significado, mas foi se pondo de outra maneira no Brasil”.


Invariavelmente, o show de Ney acaba servindo para manifestações efusivas do público contra o presidente Jair Bolsonaro — algo que tem se repetido em shows de diferentes artistas. O artista garante que seu espetáculo não é panfletário e que nunca foi panfletário em questão nenhuma.


“Acho que é um direito (as manifestações), não reprimo não. Agora, não paro o show para isso, apenas continuo. Creio que não deva ficar falando essas coisas no palco”, avalia.


Ney voltou aos palcos em outubro do ano passado, com show em São Paulo. Ele freou a agenda com o avanço da variante Ômicron, mas agora está na estrada novamente. Em sua retomada, o cantor afirma estar percebendo públicos interessantes:


“A plateia tem sido muito acesa e participativa. Tenho deparado com públicos tranquilos para lidar. Uma gente alegre e querendo aquilo que está vendo”.


Para além dos 80


Além de shows e discos, também será possível conferir a história de Ney em duas produções audiovisuais. O cantor será interpretado pelo ator Gabriel Leone em uma série que vai contar a história do seu ex-grupo Secos & Molhados. Sem previsão de estreia, a série será produzida pelo Globoplay.


Ney também ganhará uma cinebiografia intitulada Homem com H, que será dirigida por Esmir Filho (Verlust e Os Famosos e Os Duendes da Morte). O filme segue em pré-produção e sem data de estreia. Vale lembrar que em 2020 foi lançado o documentário Ney à Flor da Pele, dirigido por Felipe Nepomuceno, que é centrado no impacto das performances do artista em seu público e na reverberação desse impacto na cultura brasileira.


Enquanto isso, Ney deve seguir na estrada. Em junho, ele faz show no Rock in Rio Lisboa. No mês seguinte, o cantor desembarca nos Estados Unidos para quatro apresentações. Seu objetivo é seguir a turnê de Bloco na Rua enquanto for possível.


Ney conta que se prepara o tempo todo para estar no palco. Faz ginástica diariamente, não bebe, não fuma, nem gosta de comer muito.


“Estou me mantendo muito bem. Claro, sinto que estou ficando velho, mas e aí, é normal (risos)”, diverte-se.


“Nós ficamos felizes quando fazemos aquilo que a gente gosta. Ainda mais que meu trabalho é esse. Para mim não é um trabalho, mas sim um prazer enorme”.

FONTE: Texto: William Mansque – GZH

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