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21/01/2023 às 23h04

Felipe Farias

Maceió / AL

E os presos pelos atentados de 8 de janeiro chamando sua colônia de férias de campo de concentração...
Onde estavam os responsáveis quando se desdobrava a tragédia humanitária revelada no fim desta semana em Roraima – onde estava o Brasil em 2018?
E os presos pelos atentados de 8 de janeiro chamando sua colônia de férias de campo de concentração...

De tanto que se repetiu, virou clichê, mas, é inescapável remeter ao raciocínio para falar de mais essa tragédia descoberta na reserva Yanomami: foram tantas, perpetradas pelo desgoverno Bolsonaro que conseguiram superar qualquer projeção pessimista.


Por mais que pensássemos ter chegado o fundo, o poço se mostrava pior.


É uma atrás da outra. Seguidas, sucessivas, que não nos deixam tempo sequer para tomar fôlego.


Para citar a maior, a pandemia: quantas vezes, o brasileiro se alarmou com a doença chegando às casas de milhares, dezenas de milhares, depois batendo a centena – uma, duas, três; até as sete centenas de milhares de brasileiros mortos.


Boa parte, como mostrou a CPI, podendo ter sido salva.


A troca do ministro na pasta a quem cabia tratar do maior problema do mundo, no século, pareceu absurda.


E que tal uma segunda?


E uma terceira? Colocando um general incompetente – para dizer o mínimo...


Àquela altura, uma quarta parecia já ter sido naturalizada – o caos era infinito, mesmo...


A saída do ministro da Justiça pareceu o maior escândalo.


A briga para revelar a reunião que mostraria as entranhas da ingerência na Polícia Federal para proteger os filhos parecia o cúmulo.


Mas, o acúmulo de palavrões do mandatário da nação e a revelação de que a real intenção do ministro Ricardo Salles era qualquer uma, menos prezar pela área que estava sob sua responsabilidade mostrou, de novo, que o poço chamado Brasil-sob-o-governo-Bolsonaro era mais fundo, e de areia movediça.


E eis que até depois de deixar a Presidência, os sobressaltos continuam: os atentados às sedes dos três Poderes, os gastos do cartão corporativo e a relação de conspiradores com o ministério de Damares Alves (a pura), quer ele queira quer não, são perpetrações sucessivas do infame que ocupou o Planalto nos últimos quatro anos.


Aliás, não cabia à autora do famigerado “meninos de azul meninas de rosa” prezar pelos direitos humanos?


Onde estava quando o governo, segundo consta, recebeu os 21 ofícios de instituições como Funai, PF e MPF advertindo sobre a reserva?


Ah! É mesmo: além de, agora, a “pura” estar protegida pelo foro de oito anos do mandato de senadora, “direitos humanos” era conversa fiada para o gado – e só virou coisa séria quando eles se veem na condição de presos...


É inevitável temer por se incorrer em desrespeito aos que pereceram na Polônia – e mesmo para com as vítimas da pandemia e de outras tantas tragédias com as digitais bolsonaristas, ou para com as resgatadas em Roraima.


Porém, a blasfêmia dos terroristas bolsonaristas presos em se dizer num campo de concentração produz uma tal exaltação que torna inevitável querer atirar-lhes na cara: “olhem, bolsonaristas imbecis, isso, sim, é um campo de concentração”, ao vermos as imagens das crianças indígenas.


Apesar de o ministro do STF Alexandre de Moraes ter dito que prisão não é colônia de férias, em comparação com o que mostram as imagens pavorosas reveladas pela força tarefa de saúde, é incontornável discordar do magistrado: é, sim, ministro – aliás, não apenas uma colônia de férias; o ginásio da PF, onde estão os presos, em comparação com o horror com que o Brasil se deparou no fim dessa semana, é um spa, um resort.


O que leva a outra comparação – tão pavorosa quanto: não foi quando as tropas (então) soviéticas romperam o front oriental nazista e libertaram vários países que se depararam com Auschwitz, Dachau e Sobibor?


Eis que não é o que se dá agora?


É incontestável admitir, não sem um remorso que nos acompanhará por anos, como o que nos cobrará a História pelo 8 de janeiro, pelos números da pandemia e pelo que se fez à Amazônia recentemente que nos deparamos com algo parecido – voltando a frisar o imenso respeito pelas vítimas em ambas as situações.


Não foi depois que o Brasil mudou sua ordem constituída que se deparou com o que o anterior estava perpetrando?


Como lembrou a filósofa Márcia Tiburi (“Como conversar com um fascista”), ao comentar numa das inúmeras postagens em redes sociais que o choque ante as imagens levou o Brasil a fazer – como que para expiar o horror, penitenciar-se, exprimir sua dor, solidariedade, desfazer-se da condição de cúmplice.


Não foi por acaso – disse ela – porque é assim que agem os fascistas: destruir o que consideram obstáculo, adverso ou adversário; o que logo, também, convertem num inimigo – e, como tal, deve ser eliminado.


Onde estava o ministro Marcelo Queiroga quando se desenrolava a tragédia humanitária yanomami?


Onde estava o chefe do MPF, Augusto Aras? Onde estava Marcelo Xavier, o presidente da Funai?


É... aquele mesmo que foi expulso de evento, em Madri (Espanha), em julho, cobrado pela atuação omissa da instituição, que a exemplo de Salles parecia primar por qualquer coisa, exceto pelo segmento a que se destinava proteger: a população originária do país.


Onde estava Bolsonaro?


Onde estava você, Brasil?


E, a propósito, Brasil: o que foi que você fez em 2018?

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Com a palavra, Felipe Farias

Com a palavra, Felipe Farias

Blog/coluna Felipe Farias tem 33 anos de carreira no jornalismo. Passou por vários veículos impressos e também pela TV. Atualmente, apresenta o "Com a Palavra", no YouTube do Acta; e também é comentarista no "Jornal do Acta". Neste espaço, você vai encontrar análises e comentários a respeito do cenário político local e nacional.
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